Nunca havia criado sozinha uma instalação  e tive essa grata oportunidade  em 2005 quando participei por uma semana em um workshop coordenado pela artista Laura Vinci. Isso despertou em mim uma imensa curiosidades e inquietação.

O processo de encontrar o lugar mais adequado, a escolha dos materiais e o trabalho de me entender dentro da escala, foram lentamente dando corpo a uma idéia que tinha, mas que não  sabia exatamente onde me levaria.

A escala foi um dos meus grandes desafios e aprendizados, me deparei com o tremendo equívoco de ter trabalhado a escala com a proporção  do meu olhar para a terra e não  dando muita atenção  ao imenso universo que me cercava assim como as copas das árvores que me cobriam.

 
   
 
 

Na primeira tentativa, já  com o material selecionado e bem planejado, iniciei um longo dia de trabalho, para ao término desse, olhar e praticamente não  ver nada. As linhas haviam se perdido no espaço  e tudo parecia  alguns pequenos montinhos de capim e terras em cores diferentes misturadas as folhas.

Não  entendia porque tudo tinha ficado tão  minúsculo...tinha carregado carros e carros de folhas, galhos, fibra triturada e, no entanto ao olhar tudo, era tão  pouco..e tão pequeno .

Troquei idéias com meus amigos do parque que se tornaram meus colaboradores no projeto, eles riram de mim e da minha frustração , enquanto falávamos  da mata, das coisas do mato e de como os materiais reagiam com o clima...eles me explicaram que as folhas e os musgos murcham  com o peso da chuva, o passar do dia e o cair do orvalho...senti que deveria  me entender mais com o local escolhido, entender mais o que realmente queria, entender mais dos materiais selecionados...e olhando para a copa das arvores entendi meu equivoco...minha escala estava ali, tinha que ser de mim para as árvores,  la em cima sobre minha cabeca...entendido isso combinamos de voltar no dia seguinte....tudo teria que ser refeito.

O novo dia chegou com pouco frio mas com muito sol e assim reiniciamos nosso trabalho. Praticamente durante toda a manhã novamente recolhemos folhas, galhos, terra, areia, sementes, mudas e uma outra infinidade de materiais foram descarregados no local de trabalho que ainda assim me parecia tão  pouco...e tão  pequeno.

Me contive com a ideia de que isso seria uma peça  piloto, o inicio de um trabalho que continuaria a desenvolver.

Linhas, formas e fusão com os obstaculos , num parque onde todos os elementos eram praticamente naturais e vindos da terra, nada poderia atrapalhar, tinha que estar em sintonia e harmonia com aquele lugar.
Com o passar do dia, o trabalho foi se mostrando com mais força, e por ser dia de sol, a luz nos presenteava com desenhos como rendas de sombras sobre a terra, sobre as folhas e sobre nós.
Isso me fascinou porque a instalação  se apresentou para mim como um ato único a cada olhar.

Ela se renova na verdade até quando se mostra estática em uma foto.
Ela se mostra a cada olhar  como um novo trabalho, com outras luzes, formas,  descobertas, emoções e outros movimentos ainda que imperceptíveis.


Essa minha experiência segue acontecendo e novamente sinto que a instalação se refaz e vive em cada novo olhar nas fotos que vejo e que me fazem sentir novas emoções.


"Sou carne, gordura, membranas, músculos, nervos, víceras, ossos, fluídos, sangue, moléculas, células....sou um ponto na Terra, como os milhares de grãos de areia que vejo.
Já fui terra, fui semente, hoje sou fruto e amanhã voltarei a ser pó...
quase nada...minúscula poeira solta ao vento."

Tânia Botelho


   
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